A escalada recente de tensões no Estreito de Ormuz voltou a expor uma fragilidade estrutural da economia global e reacendeu o debate sobre segurança energética e diversificação das matrizes energéticas. Por essa rota marítima, localizada entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, passam cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, o equivalente a aproximadamente um quarto de todo o petróleo transportado por via marítima no mundo, segundo estimativas da U.S. Energy Information Administration (EIA). Quando essa passagem entra em risco, o mercado reage imediatamente e os preços do petróleo sobem.
Nas últimas semanas, a escalada das tensões envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos elevou rapidamente o preço do barril, refletindo o temor de interrupções no fluxo de petróleo do Golfo. Com a redução do risco imediato de escalada militar, os preços recuaram, mas a volatilidade voltou a evidenciar o quanto o sistema energético global permanece exposto a choques geopolíticos.
Essas oscilações não ficam restritas ao mercado financeiro. A alta do petróleo costuma se refletir rapidamente na economia, pressionando custos de transporte, combustíveis e cadeias produtivas inteiras.
No caso brasileiro, esse cenário tem implicações diretas, pois, embora o país seja um importante produtor de petróleo, sua logística permanece fortemente dependente de combustíveis fósseis, especialmente no transporte rodoviário, lembrando que o Brasil importa grande quantidade de Diesel A, com impacto na balança comercial.
Segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), o transporte foi o setor que mais ampliou emissões no Brasil em 2023, com crescimento de 3,2% em relação ao ano anterior. Em uma economia que depende intensamente das rodovias para escoar produção agrícola, industrial e mineral, oscilações prolongadas no preço dos combustíveis tendem a se refletir rapidamente nos custos da economia.
Com um Produto Interno Bruto (PIB) próximo de R$ 12,7 trilhões, o Brasil possui uma logística baseada em rodovias. Esse cenário reforça a sensibilidade da economia brasileira a movimentos prolongados de alta nos combustíveis. Ao mesmo tempo, o país parte de uma posição diferente da maioria das economias industriais.
De acordo com o Balanço Energético Nacional 2024, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética, cerca de 49,1% da energia ofertada no país em 2023 veio de fontes renováveis, participação significativamente superior à média global. Nesse contexto, os biocombustíveis têm papel central na matriz energética brasileira. O estudo "Trajetórias Tecnológicas mais Eficientes para a Descarbonização da Mobilidade" afirma que o país responde por aproximadamente 24% da produção global de etanol, consolidando-se como um dos principais polos mundiais dessa tecnologia. Projeções do setor indicam que a demanda nacional pode crescer de cerca de 29 bilhões para mais de 50 bilhões de litros até 2050, ampliando o papel desse combustível na matriz energética. Além disso, o levantamento "Iniciativas e Desafios Estruturan…;, encomendado pelo Instituto MBCBrasil, aponta que o país possui aproximadamente 100 milhões de hectares de pastagens degradadas com potencial para expansão da produção de bioenergia sem competir diretamente com a produção de alimentos. Outra frente com potencial relevante é o biometano, combustível renovável produzido a partir de resíduos orgânicos. Estimativas do setor indicam que ele poderia substituir até 70% do diesel atualmente importado pelo Brasil, especialmente em aplicações de transporte pesado e logística.
Para José Eduardo Luzzi, presidente do conselho de administração do Instituto MBCBrasil, a volatilidade recente do petróleo reforça a importância de o país avançar em soluções energéticas próprias.
"A crise no Estreito de Ormuz mostra como gargalos geopolíticos continuam influenciando o custo da energia no mundo. O Brasil possui uma vantagem estrutural relevante, que é uma base consolidada de biocombustíveis e capacidade de expandir a produção sem pressionar a segurança alimentar", afirma.
Segundo ele, transformar esse potencial em estratégia energética pode reduzir a exposição do país a choques externos e fortalecer a competitividade da economia.
A transição energética também representa uma oportunidade econômica relevante. O relatório New Energy Outlook 2025, da BloombergNEF, estima que o Brasil precisará mobilizar cerca de US$ 6 trilhões em investimentos até 2050 para atingir a neutralidade de carbono. Esse volume de recursos tende a ser direcionado principalmente para infraestrutura energética, transporte e desenvolvimento de novas tecnologias.
Parte desse movimento já começou em 2024. Relatório do World Economic Forum aponta que o Brasil lidera a América Latina no avanço da transição energética e destaca o papel crescente de economias emergentes na expansão global de investimentos em energia limpa. A aprovação da política conhecida como Combustível do Futuro também tende a ampliar esse fluxo de recursos para cadeias como etanol, biodiesel e novos combustíveis de baixo carbono, reforçando o papel do Brasil como um dos países com maior potencial para liderar soluções energéticas de menor intensidade de carbono.
Em economias com alta dependência de transporte e logística, a redução da exposição a choques externos nos mercados de energia configura-se simultaneamente como uma agenda ambiental e como um vetor de relevância econômica e estratégica. O Brasil reúne, ao mesmo tempo, condições que poucos países possuem: base renovável relevante, indústria de biocombustíveis consolidada e capacidade de expansão da produção de energia limpa. Transformar essas vantagens em estratégia de longo prazo pode reduzir vulnerabilidades externas e ampliar a competitividade da economia brasileira em um cenário energético cada vez mais incerto.













