Corrida por terras raras impulsiona reciclagem estratégica
Corrida por terras raras impulsiona reciclagem estratégica

A disputa global por minerais críticos utilizados em tecnologias da transição energética e da economia digital começa a revelar uma fronteira estratégica ainda pouco explorada: a recuperação desses materiais a partir de resíduos eletrônicos.

Elementos conhecidos como terras raras, como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, são essenciais para motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores e diversos equipamentos eletrônicos. Com a expansão dessas tecnologias, a demanda por esses minerais cresce rapidamente em todo o mundo.

Ao mesmo tempo, a cadeia global de produção apresenta forte concentração geográfica. Hoje, a China é responsável por aproximadamente 70% da mineração de terras raras, 90% da separação e processamento e 93% da fabricação de ímãs, criando um nível significativo de dependência para diversas economias industrializadas.

"À medida que a transição energética avança, cresce também a preocupação com a segurança de suprimento desses minerais estratégicos", afirma Marcelo Souza, CEO da Indústria Fox e presidente do Instituto Nacional de Economia Circular. Segundo ele, esse cenário tem ampliado o interesse por soluções capazes de reduzir vulnerabilidades nas cadeias produtivas.

A nova fronteira: mineração urbana

Nesse contexto, Marcelo reforça que especialistas começam a olhar para uma fonte alternativa de recursos: os próprios resíduos eletrônicos gerados pelas economias modernas.

Celulares, computadores, placas eletrônicas, motores e diversos dispositivos tecnológicos descartados contêm quantidades relevantes de metais estratégicos utilizados na indústria contemporânea.

"Durante muito tempo, o lixo eletrônico foi tratado apenas como um problema ambiental. Hoje ele começa a ser visto também como um potencial estoque urbano de matérias-primas industriais", detalha.

Essa abordagem tem sido chamada de mineração urbana, conceito que descreve a recuperação de metais estratégicos presentes em equipamentos eletrônicos descartados.

Embora não substitua a mineração tradicional, essa alternativa pode se tornar um complemento relevante para ampliar a resiliência das cadeias industriais e reduzir pressões sobre recursos naturais.

O potencial ainda pouco explorado do Brasil

O debate ganha especial relevância no Brasil: o país possui algumas das maiores reservas potenciais de terras raras do mundo e gera cerca de 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano, o maior volume da América Latina. Apesar disso, menos de 3% desses resíduos são reciclados formalmente, segundo estimativas do setor.

Esse cenário revela uma oportunidade ainda pouco explorada no contexto da economia circular e da política industrial. "Parte dos minerais considerados estratégicos para a economia digital pode já estar circulando dentro das próprias economias, presente em equipamentos que fabricamos, utilizamos e descartamos diariamente", esclarece Souza.

Uma nova geopolítica dos recursos

Historicamente, grandes transformações tecnológicas costumam desencadear disputas por recursos estratégicos. No século XX, essa dinâmica esteve fortemente associada ao petróleo. Já no século atual, ela passa cada vez mais pelos minerais que sustentam a economia digital e a transição energética.

Nesse contexto, a forma como países e empresas organizam seus fluxos de materiais, incluindo reciclagem, reuso e recuperação de recursos, pode se tornar um fator cada vez mais relevante para a competitividade industrial.

"Se no passado a geopolítica dos recursos era definida principalmente pela localização das reservas naturais, no futuro ela pode ser cada vez mais influenciada pela capacidade das sociedades de organizar seus materiais de forma inteligente e circular", finaliza Marcelo Souza.