Em uma cidade que há anos convive com indicadores preocupantes relacionados ao suicídio e às tentativas de suicídio, a Câmara Municipal de Botucatu aprovou, na noite de segunda-feira (24), o reconhecimento de Utilidade Pública para uma entidade dedicada justamente ao acolhimento emocional e à prevenção.
De autoria do vereador Lelo Pagani (PSDB), o Projeto de Lei nº 76/2026 declara de Utilidade Pública a Associação de Apoio Emocional, entidade filantrópica que desenvolve e mantém plantão de apoio emocional e de prevenção ao suicídio.
A associação está localizada na Rua Luiza de Oliveira Parada, nº 334, no Conjunto Habitacional Leandro Alarcão Dias, e, segundo a justificativa apresentada à Câmara, desenvolve atividades assistenciais destinadas a toda a comunidade.
O reconhecimento ocorre diante de um tema que há anos mobiliza profissionais de saúde, pesquisadores e autoridades públicas de Botucatu.
Histórico de preocupação no município
Botucatu já foi objeto de estudos específicos sobre suicídio conduzidos por pesquisadores ligados à Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Um deles, desenvolvido na Faculdade de Medicina de Botucatu, analisou os casos registrados no município em 2009 e teve orientação do psiquiatra José Manoel Bertolote, professor da instituição e especialista que atuou durante anos junto à Organização Mundial da Saúde (OMS).
Anos depois, em discussão promovida pela própria Câmara Municipal, Bertolote abordou o problema e o Legislativo registrou que Botucatu apresentava, naquele período, uma média de suicídios considerada bem acima da nacional entre cidades com mais de 100 mil habitantes.
Dados divulgados em 2015 também dimensionavam a preocupação naquele momento: Botucatu havia registrado 191 notificações de tentativas de suicídio em 2014, além de 13 mortes naquele ano. À época, a taxa calculada era próxima de 10 mortes por 100 mil habitantes, enquanto a taxa nacional utilizada na comparação era de 5,8 por 100 mil habitantes.
Os números são históricos e não devem ser interpretados como um ranking atual do município, mas ajudam a explicar por que a prevenção ao suicídio permanece como uma questão recorrente de saúde pública em Botucatu.
Estudos recentes mantêm tema em evidência
Uma pesquisa publicada em 2025 analisou 807 casos de tentativas de suicídio atendidos por serviços móveis de emergência nas regiões de Botucatu e Ourinhos, com ocorrências registradas entre 2018 e 2019.
O estudo encontrou associação significativamente maior da região de Botucatu com registros de ideação suicida e autoagressão em comparação com a região analisada de Ourinhos.
Já em maio deste ano, a própria Câmara Municipal voltou a chamar atenção para o assunto. Um requerimento para realização de audiência pública citou o aumento dos casos de sofrimento psíquico e dos índices de suicídios e tentativas de suicídio no município, defendendo a discussão sobre estrutura de atendimento, acolhimento, capacidade das equipes e articulação da rede de saúde mental.
Plantão de apoio emocional
É nesse contexto que a Associação de Apoio Emocional recebe o reconhecimento do Legislativo.
Conforme a justificativa do Projeto de Lei nº 76/2026, trata-se de uma associação civil de direito privado e caráter filantrópico, cuja finalidade é desenvolver e manter plantão de apoio emocional e de prevenção ao suicídio. A entidade também desenvolve atividades assistenciais voltadas à comunidade.
A documentação exigida pela Lei Municipal nº 5.928/2017 foi apresentada juntamente com o projeto para comprovar o atendimento aos requisitos necessários à declaração de Utilidade Pública.
O reconhecimento municipal pode ampliar a relevância institucional da associação e formaliza, perante o município, o caráter de interesse público do trabalho desenvolvido pela entidade.
Em Botucatu, onde o tema da prevenção ao suicídio atravessa pesquisas acadêmicas, campanhas públicas e debates sobre a estrutura da rede de saúde mental, a atuação de organizações voltadas à escuta e ao acolhimento ganha importância adicional.















