Docentes e pesquisadores da Unesp de Botucatu divulgaram uma Carta Aberta às autoridades municipais, indagando o motivo do “relaxamento” nas medidas de controle da Covid-19 após a Vacinação em massa que ocorreu na Cidade.

Os profissionais da Saúde demonstram preocupação com o aumento de casos, internações e óbitos, e cobram da Prefeitura de Botucatu “a adoção de medidas sanitárias complementares, com destaque para o Lockdown e uma ampla campanha de esclarecimento sobre os riscos que se correm quando a transmissão da doença se dá em níveis tão elevados e crescentes, como esses das últimas semanas aqui em Botucatu”.

Leia abaixo a íntegra da Carta Aberta

 

Carta Aberta às Autoridades Municipais
Na qualidade de docentes e pesquisadores da Unesp, Botucatu, temos o dever de indagar por que uma cidade que realizou um bom trabalho no controle local da pandemia de COVID-19, durante 2020, alcançando uma das menores taxas de mortalidade no estado de São Paulo, relaxa enormemente as medidas de controle, logo após a realização de uma extraordinária vacinação em massa, deixando que em apenas um mês o número de mortes se aproximasse das ocorridas em 2020?  Ao longo de nove meses de 2020, ocorreram 58 óbitos e agora em apenas 30 dias – de 16 de maio a 16 de junho – já foram perdidas 44 vidas por covid-19 na cidade!   Na semana epidemiológica que se encerrou no dia 12 de junho, ocorreram quase 1.000 casos novos no município, a maior incidência ao longo de toda a pandemia, o que representou um crescimento de 52% de casos novos em relação à semana epidemiológica anterior. 
Este enorme crescimento da covid-19 em nossa cidade ocorre ao mesmo tempo em que caminhamos para 500 mil mortes em nosso país e uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado Nacional revela, o que já apontavam diversos estudos: não foi por incompetência do governo federal que o Brasil foi avaliado como a pior experiência de combate ao COVID-19 no mundo, mas sim por uma planejada ação, da presidência da república e de seu gabinete paralelo, que adotou a imunidade de rebanho como estratégia de disseminação mais rápida do vírus, em oposição a todo o consenso científico disponível para preservar vidas e, consequentemente, preservar a economia. Mesmo governos cujos líderes políticos também adotaram esta estratégia negacionista, logo perceberam o erro cometido, e mudaram de orientação, passando a seguir a ciência, como foi o caso de Boris Johnson, na Inglaterra. 
Não há dúvida que esta ação planejada do governo federal influenciou corações e mentes enfraquecendo os esforços de governos estaduais e municipais que buscam conter o avanço da pandemia em nosso país. Essas atitudes têm sido adotadas, especialmente por pressão de lideranças empresariais que acreditam na equivocada tese de que as medidas de controle da pandemia ameaçam a economia, quando o que se vê no mundo é que os países que melhor controlaram a progressão da covid19 foram aqueles que melhor tem se saído na recuperação econômica, inclusive com a vacinação em massa.  
É por todas estas questões e aprendizados alcançados ao longo da pandemia que se espera a retomada, pelas autoridades políticas e sanitárias de nossa cidade, das ações de controle e a efetiva comunicação com a sociedade para reduzir drasticamente a circulação do Sars CoV-2 na cidade, e assim diminuir os casos, as hospitalizações e mortes nas próximas semanas e ao longo deste ano.
É importante observar que, ao se manter alta a circulação do vírus na cidade, ampliasse também o risco de aparecimento e progressão de novas variantes – como a Delta (de origem indiana), mais transmissível – assim, expondo tanto aqueles ainda parcialmente protegidos pela 1ª dose da vacina, quanto os  ainda não vacinados, os adolescentes e as crianças.  
A atual pandemia está cobrando da sociedade brasileira custo humano, econômico e social sem precedentes e que só não é maior ainda em função da existência do SUS, de mobilizações comunitárias exemplares, de iniciativas de políticas públicas locoregionais e da comunidade científica, como as que foram adotadas aqui em Botucatu. No momento atual, os resultados alcançados estão ameaçados em grande parte pela instalação em nosso país de uma disputa de narrativas absolutamente sem sentido, como a que se faz em torno do ineficaz e danoso tratamento precoce, e que não se vê em nenhum outro lugar do mundo. 
Por tudo isso, urge a adoção de medidas sanitárias complementares por parte do poder público, com destaque para o lockdown e uma ampla campanha de esclarecimento sobre os riscos que se correm quando a transmissão da doença se dá em níveis tão elevados e crescentes, como esses das últimas semanas aqui em Botucatu. 
Não podemos deixar que as mortes por COVID-19 em nossa cidade sejam aceitas como naturais. Nossas famílias não querem mais perdas de entes queridos! 
Botucatu, 18 de junho de 2021
Ana Teresa de Abreu Ramos Cerqueira
Antonio Pithon Cyrino
Carmen Regina Marcati
Carolina Siqueira Mendonça
Caroline de Barros Gomes
Catia Regina Branco da Fonseca
Cristina Lima Parada
Elen Rose Castanheira
Fausto Foresti 
Gimol Perosa Benzaquen
Guilherme Barbosa
Ildeberto de Almeida
Jane Megid
José Matheus Yalenti Perosa
João Marcos Bernardes
Karina Pavão Patrício
Luciana Montes de Oliveira
Luiz Roberto de Oliveira
Maria Dionísia do Amaral Dias 
Maria Antonieta BL Carvalhaes
Marla Avila
Marli Cassamassimo Duarte
Miriam Celi Porto Foresti
Silmara Meneguim
Silvia Justina Papini
Valdemar Pereira de Pinho
Vera Lex Engel
Vera Pamplona Tonete

 

 

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