Um momento comum durante uma refeição pode se transformar em uma emergência em poucos segundos. O engasgo, muitas vezes subestimado, é uma das situações mais perigosas à mesa e pode evoluir para casos fatais quando não há reconhecimento rápido dos sinais e intervenção imediata.

Em entrevista ao Portal Terra, o médico Cássio Vieira de Oliveira, chefe do Serviço de Endoscopia Digestiva do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp), fez o alerta. Segundo ele, o engasgo se torna potencialmente fatal quando ocorre obstrução completa das vias aéreas, impedindo a passagem de ar para os pulmões.

Nessas situações, a pessoa não consegue falar, tossir ou respirar adequadamente e pode evoluir rapidamente para hipóxia cerebral. Após cerca de quatro a seis minutos sem oxigenação adequada, já existe risco significativo de dano neurológico irreversível e parada cardiorrespiratória.

Grupos com maior risco

Alguns grupos apresentam maior risco de evolução grave, entre eles:

Idosos;
Crianças pequenas;
Pacientes com doenças neurológicas, como AVC, Parkinson e demências;
Pessoas sob efeito de álcool ou sedativos;
Indivíduos com doenças que causam disfagia (dificuldade para engolir).

Sinais que indicam gravidade

O médico orienta que os seguintes sinais indicam obstrução grave das vias aéreas:

Incapacidade de falar ou tossir;
Respiração silenciosa ou muito difícil;
Coloração arroxeada dos lábios (cianose);
Levar as mãos ao pescoço, considerado sinal universal do engasgo;
Perda de consciência.

Nessas situações, o atendimento deve ser imediato, com início de manobras de desobstrução e acionamento do serviço de emergência.

Principais causas em adultos

De acordo com o especialista, em adultos jovens os episódios são frequentemente desencadeados por alimentos de textura mais complexa, como carnes e sanduíches, especialmente quando há ingestão rápida, mastigação inadequada ou consumo de álcool. Ambientes com distrações também aumentam o risco.

A ingestão acidental de objetos é menos comum, mas pode ocorrer em situações de distração, risco ocupacional ou durante atividades recreativas.

Doenças esofágicas, como eosinofilia esofágica, estenoses e alterações anatômicas ou funcionais do esôfago, também podem predispor à impactação alimentar, principalmente em casos recorrentes.

Conduta e manobras de desobstrução

A conduta varia conforme o nível de obstrução.

Nos casos leves, a recomendação é incentivar a pessoa a tossir e manter monitoramento, já que a maioria se resolve espontaneamente.

Em situações graves, recomenda-se a realização da manobra de Heimlich, a auto-manobra utilizando o encosto de uma cadeira para compressão abdominal ou golpes nas costas.

Quando as manobras físicas não resolvem, a intervenção definitiva pode ser a retirada do objeto por meio de endoscopia em ambiente hospitalar. Existem dispositivos de sucção, mas a evidência científica ainda é considerada limitada.

Protocolo de avaliação

Segundo o médico, a avaliação deve ser imediata e precisa. A história clínica deve identificar sintomas como tosse, incapacidade de vocalizar, dificuldade respiratória e disfagia, além do contexto do episódio, como tipo de alimento ingerido e presença de doenças prévias.

No exame físico, devem ser observados sinais de obstrução grave, como cianose e esforço respiratório extremo.

Exames como radiografia de tórax são indicados quando há suspeita de corpo estranho radiopaco ou perfuração. A tomografia pode ser utilizada quando a radiografia é inconclusiva ou há suspeita de complicações. A endoscopia é indicada precocemente em casos de obstrução completa, impactação alimentar persistente ou suspeita de doença esofágica subjacente.

O especialista reforça que reconhecer rapidamente os sinais e agir de forma adequada pode ser decisivo para evitar consequências graves.

Por Leia Notícias com informações Portal Terra