Entregas turbo exigem nova logística no varejo
Entregas turbo exigem nova logística no varejo

Uma pesquisa recente da HarriX, sob encomenda da Amazon, revelou que nove em cada dez clientes brasileiros consideram a entrega rápida, seja no mesmo dia ou no dia seguinte, como um fator decisivo para finalizar a compra.

O fenômeno reflete como grandes empresas varejistas, a exemplo de Mercado Livre, Magalu e a própria Amazon, estão constantemente reformulando suas operações logísticas para atender a essa nova realidade do mercado. Recentemente, a Shopee foi uma das plataformas a aderir às entregas rápidas com o anúncio da modalidade "turbo", que promete enviar produtos em até quatro horas para clientes da Grande São Paulo.

Para o Adm. Celson Bertanha, coordenador do Grupo de Excelência em Gestão da Cadeia de Suprimentos e Logística (GELOG), do Conselho Regional de Administração de São Paulo (CRA-SP), a corrida pela velocidade é resultado da combinação entre a mudança no comportamento do consumidor, que exige cada vez mais agilidade, com a evolução da infraestrutura logística e tecnológica.

"Hoje, o cliente não avalia apenas preço e variedade. Quando grandes empresas como Shopee, Amazon e Mercado Livre elevam o nível de serviço, elas também redefinem a expectativa do mercado. Isso está levando o varejo a aproximar estoques da demanda, ampliar hubs urbanos, integrar sistemas e utilizar cada vez mais a análise de dados e inteligência artificial para antecipar tendências e responder ao consumo", explica Bertanha.

Além disso, ele destaca que a promessa por rapidez nos envios também deve se sustentar em períodos de picos de compras, como a Black Friday, ou diante de imprevistos externos. "Entrega ultrarrápida não é acelerar o transporte. É construir uma cadeia sincronizada, previsível e flexível", pontua Bertanha.

Entregas turbo na Black Friday: é possível?

Já pensando na Black Friday, um dos principais e mais lucrativos períodos do varejo, que este ano acontece no dia 27 de novembro, Bertanha adianta que é possível conciliar as entregas turbo com a alta demanda de pedidos, desde que haja planejamento prévio.

Segundo o coordenador do GELOG, o aumento concentrado de compras pressiona, simultaneamente, diversas etapas logísticas essenciais para ofertar essa modalidade. "A preparação precisa começar antes do evento, com posicionamento de estoque, dimensionamento de equipes e transportes, bem como os planos de contingência", sugere.

No entanto, ele faz um alerta: nem todo pedido precisa chegar ao cliente em poucas horas. Oferecer essa opção em períodos como a Black Friday, sem a estrutura correta, pode gerar impactos negativos na operação logística. Conforme avalia Bertanha, uma decisão estratégica é fundamental para evitar o aumento de custos, a redução de produtividade e o comprometimento do nível de serviço.

"Quanto menor o prazo prometido, menor precisa ser a distância entre o produto e o consumidor. Por isso, ganham importância os microhubs e o ship-from-store (lojas físicas que funcionam como mini centros de distribuição)", comenta o coordenador.

Logística e sustentabilidade

Outro fator que a logística deve levar em consideração na adaptação às entregas turbo são os impactos sustentáveis. Com mais viagens, o número de veículos na rua cresce e, consequentemente, a emissão de gases poluentes também aumenta. "A agenda ESG precisa fazer parte do desenho da operação", destaca Bertanha.

Para reduzir os danos ambientais, o coordenador sugere a otimização de rotas e utilização de veículos elétricos ou, quando possível, de outros modais de menor emissão. Já no aspecto social, ele adverte que a velocidade não pode ser prometida, transferindo o custo para quem está na linha de frente; ou seja, a empresa deve fornecer condições seguras de trabalho e jornadas adequadas aos entregadores e agentes logísticos.

"É preciso ampliar os indicadores: não olhar somente quanto tempo levamos para entregar, mas também quantos recursos serão utilizados. Na minha visão, o futuro da logística não está em entregar cada vez mais rápido, mas em saber qual é a velocidade certa para gerar valor, com eficiência e sustentabilidade", conclui Bertanha.