O campus da Unesp de Botucatu instaurou na última quarta-feira (30) uma comissão de apuração para investigar um caso de racismo de estudantes que teriam feito “blackface”, prática que consiste na pintura da pele com tinta escura e que está atrelada à ridicularização de pessoas negras, durante um trote universitário, na sexta-feira (25).

Na festa, calouros teriam sido obrigados a pintar o rosto com tinta preta para participar de uma gincana. Logo depois da festa, as imagens foram compartilhadas nas redes sociais por estudantes denunciando a prática, que é considerada racista.

A República que recebeu o evento se pronunciou nas redes sociais, afirmando que a gincana, realizada há anos, é uma “forma de integração entre calouros e veteranos das repúblicas, sendo os times separados por cores com o intuito de identificar os integrantes de cada equipe na competição. As cores disponíveis eram amarelo, rosa, azul, verde, vermelho, marrom e preto”.

Ainda no comunicado, a república afirma que “dada a euforia e o clima de descontração, não percebeu o que a pintura com a cor preta poderia significar e quais os gatilhos que poderiam ser despertados a partir dela”. Confira a nota na íntegra abaixo:

“Olá.


Gostaríamos de compartilhar essa nota oficial com toda a comunidade unespiana a respeito da gincana de repúblicas, chamada Circuito Tarja Preta, que ocorreu na sexta-feira, dia 25.11.2022. E, de antemão, já pedir publicamente verdadeiras desculpas a quem tenha se sentido ofendido.


Há anos, essa gincana é realizada como forma de integração entre calouros e veteranos das repúblicas.
Como se trata de uma gincana, os times são separados por cores com o intuito de identificar os integrantes de cada equipe na competição. As cores disponíveis eram amarelo, rosa, azul, verde, vermelho, marrom e preto.


Nesse momento, dada a euforia e o clima de descontração, não percebemos o que a pintura com a cor preta poderia significar e quais os gatilhos que poderiam ser despertados a partir dela.


Em momento algum tivemos a intenção de ofender alguém, mas compreendemos a dor que surge com a simbologia da atitude. Sabemos que pessoas brancas pintadas de preto remete a atos absurdos, fazendo apologia a [email protected]@ce e zombarias inescrupulosas que trazem dor e consequências negativas no imaginário coletivo. A falta de percepção no momento da gincana decorre do privilégio branco que vivenciamos e a Tarja Preta está comprometida a combetê-lo sempre. Ao longo dos anos, a Tarja Preta sempre se posicionou contra qualquer tipo de ato, brincadeira, festa e afins que carregue simbologia racista, xenófoba, misógina, machista, homofóbica.
Pedimos sinceríssimas desculpas a [email protected] que tenham se ofendido com essa infelicidade.

Repudiamos veementemente todo e qualquer ato discriminatório de raça, gênero, orientação sexual.
Colocamo-nos inteiramente à disposição do Coletivo AFROnta, da URUBU e dos Diretórios Acadêmicos para que possamos ter um diálogo produtivo sobre o assunto, naturalmente respeitando o lugar de fala de todo e qualquer movimento.”

Em um comunicado publicado nas redes sociais, o Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu (IBB) afirma que as imagens e denúncias já estão em posse de uma comissão de apuração, a qual também já constitui um conjunto de estratégias para identificar os envolvidos, inclusive aqueles que, no momento do ocorrido, estavam nas redes sociais veiculando as imagens e a própria festa.

Ainda no pronunciamento, a instituição pontua que, além de averiguar os fatos e dar o direito do contraditório a todos os envolvidos, deve enviar às comunidades universitárias as devidas punições, se for o caso.

Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu (IBB) instaurou uma comissão de apuração para investigar o caso de racismo — Foto: Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu/Divulgação
Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu (IBB) instaurou uma comissão de apuração para investigar o caso de racismo — Foto: Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu/Divulgação

Além disso, a comissão vai ajudar a definir os elementos legais que permitem proceder com denúncias junto às autoridades policiais no momento oportuno.

Calouros pintaram os rostos com tinta preta durante gincana — Foto: Arquivo pessoal

Calouros pintaram os rostos com tinta preta durante gincana — Foto: Arquivo pessoal

A origem do ‘blackface’

O “blackface” é uma prática que tem pelo menos 200 anos. Acredita-se que ela tenha se iniciado por volta de 1830 em Nova York. Mas não se trata apenas de pintar a pele de cor diferente.

Era uma prática na qual pessoas negras eram ridicularizadas para o entretenimento de brancos. Estereótipos negativos vinham associados às piadas, principalmente nos Estados Unidos e na Europa.

No século 19, atores brancos usavam tinta para pintar os rostos de preto em espetáculos humorísticos, se comportando de forma exagerada para ilustrar comportamentos que os brancos associavam aos negros. Também ridicularizavam os sotaques dos personagens que incorporavam nas peças.

Isso surgiu numa época em que os negros nem eram autorizados a subir nos palcos e atuar, por causa da cor da pele.

Conforme movimentos antirracistas foram crescendo, o “blackface” foi sendo eliminado do entretenimento e, atualmente, é algo visto como vergonhoso e lamentável.

G1