Gesiel Júnior
Especial para Botucatu on line  

Sob testemunho apenas de familiares, por imposição legal em tempos de pandemia, o corpo do ex-governador de São Paulo, o nonagenário Laudo Natel, foi sepultado nesta segunda-feira, 18 de maio. Baixinho, sempre de paletó e gravata, ele apreciava que o chamassem de “governador caipira”, embora mantivesse a formalidade e a extrema discrição.

Para Botucatu, em seu governo Natel destinou importantes obras públicas, com destaque para a construção do Elevado Bento Natel, moderna ligação da cidade com a Vila dos Lavradores, inaugurada durante o mandato do prefeito Plínio Paganini. Ele recebeu o título de “Cidadão Botucatuense” em abril de 1972, quando entregou as unidades de radiologia e de pediatria da Misericórdia Botucatuense e as instalações do Centro de Educação e Recuperação dos Excepcionais, para atendimento de 150 crianças.

Filho de Bento Alves Natel e de Albertina Barone, Laudo nasceu no dia 14 de setembro de 1920 no vizinho município de São Manuel e cresceu na Fazenda Quebra Pote, de onde cavalgava para estudar em Mirassol. Aos 17 anos, começou a trabalhar no Banco Noroeste em Pirajuí, seu primeiro emprego. Lá conheceu Maria Zilda Gamba, com quem se casou em 1943 e teve dois filhos, Ivan e Maurício. Trabalhou em Marília, de onde se transferiu para São Paulo, a convite de Amador Aguiar, que havia criado o Banco Brasileiro de Descontos (Bradesco) e o pôs na diretoria. Formou-se, a seguir, em economia pela Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da USP.

Empenhado, na capital o jovem economista dirigiu a Associação Comercial e presidiu o Sindicato de Bancos de São Paulo, além da Comissão Bancária do Conselho Monetário Nacional. Tornou-se tesoureiro do São Paulo Futebol Clube em 1952 e seu presidente em 1958, cargo que ocuparia durante 12 anos.

 

                Vice-governador eleito

Natel ingressou na política nas eleições de 1962, quando disputavam o governo paulista os candidatos Adhemar de Barros, Jânio Quadros, José Bonifácio Coutinho Nogueira e Cid Franco. Ele concorreu ao cargo de vice-governador na legenda do PR, quando o país vivia no clima de crescente radicalização social e política. Foi eleito com cerca de 1,2 milhão de votos, após uma campanha em que enfatizou a eficiência administrativa e valorizou o fato de não ser político.

Assumiu o cargo em 31 de janeiro de 1963 e meses depois participou ativamente, ao lado de Adhemar, da preparação do movimento político-militar que depôs o presidente João Goulart. Em 1966, com a cassação do titular, ele assumiu o cargo de governador, e, durante sua breve gestão de 11 meses, optou por atuar em sintonia com o governo federal, obtendo a redução do déficit das finanças públicas e a unificação das 11 hidrelétricas estaduais ao criar as Centrais Elétricas de São Paulo (CESP).

Em 1967, Laudo Natel retomou suas funções no Bradesco e no São Paulo Futebol Clube, período em que concluiu a construção do Estádio do Morumbi sem uso de dinheiro público. Consta que, ao observar a grandiosidade dessa obra ao assistir a um jogo ao lado do dirigente esportivo, o presidente Emílio Médici decidiu fazer dele governador em 1971.

Eleito pela Assembleia Legislativa, em sua segunda gestão mostrou eficiência ao dar ênfase no desenvolvimento do interior. Também modernizou o sistema fazendário, unificou a malha ferroviária na Fepasa, inaugurou o Metrô, criou a Sabesp e a Cetesb e aprovou um plano para o desenvolvimento do Vale do Ribeira.

Entretanto, o governo de Natel coincidiu com a fase mais rigorosa da censura imposta à imprensa pela ditadura. Foi quando o então diretor do Jornal da Tarde, Ruy Mesquita, inventou uma receita culinária com o nome de “lauto pastel”, jogo de palavras para homenagear o governador, em meio às receitas de doces e bolos publicadas para cobrir o espaço aberto pelos cortes dos censores.

Ao deixar o Palácio dos Bandeirantes, em 1975, aos 55 anos, Natel abriu mão de direitos e privilégios, como carro e agentes de segurança. Reocupou sua vaga na diretoria do Bradesco como consultor. Tentou, apoiado pelo presidente Geisel, em 1978, um terceiro mandato, também por eleição indireta, mas foi vencido na convenção da Arena, o partido oficial, por seu ex-secretário de Transportes, Paulo Maluf.

A partir de 1980 militou no PDS e depois no PFL, mas sem disputar eleições. Exerceu suas atividades no setor privado até o ano 2000, ainda no Bradesco. Afastado da vida social, o ex-governador, de 99 anos, nem era reconhecido quando aparecia em público. “Alguém já lhe disse que o senhor tem a cara do Laudo Natel?”, ele teria escutado mais de uma vez essa pergunta dita ao pé do ouvido por pessoas que não esperavam que ainda estivesse vivo.