Acordei já emocionada.
Aniversário da amiga amada Neu Belvel!
Céu azul.

” Ahhhhhhh, Dé!…”
Como gostaria de ouvir você falar isso e, em seguida, a sua gargalhada, tirando sarro da minha cara!
Quantas saudades amiga!

Nos conhecíamos de passagem.
Não éramos da mesma turma, mas tínhamos amigos em comum.

Tudo mudou quando a família voltou a morar em Botucatu, a Arerine ainda adolescente.

Nos encontramos e, assim, seguimos até o fim.
No percurso, Fernando e Fabinho.
Foram anos e anos de aventuras, gargalhadas e lágrimas.

Diego e Lucas te elegeram ” titia”, Are me fez ” titia”.
Meus irmãos e mamãe te amaram.
Virou família do pra sempre e do amigo secreto de Natal.
Fomos pra Uberaba, pra São Pedro, Ubatuba.
Fomos juntas nas baladas e festas da Unesp.
Enterramos nossos pais.

E nossos amores?
Ahhhhhhh, nunca concordamos, mas como namoramos! Muuuuitoooo!

Foi a Neu a primeira a comprar casa nos Comerciários.
E foi aqui que comprei a minha casa também.

Me deu dois cachorros.
Vlad, o mastim, e Odin, o labrador.
Ela foi grande cachorreira e era louca por animais.

Conheceu minhas netas e quanto amor tinha pelos meus meninos.
Sempre me dizia que eles eram tão melhores que eu que nem pareciam meus filhos.
Isso era provocação e todo o tempo me provocava, me amava e torcia por mim.

Alguns anos atrás perdemos o Fabinho.
Foi muito dolorido, ele era nosso parceiro.

Neu foi muito guerreira.
Enfrentou muitas adversidades e dores.

Neu foi mãezona e foi a avó mais amorosa.

Era muito brava e muito carinhosa.
Era uma guerreira, justa e ética.

Adorava dirigir e dirigia muito bem.

E era muito engraçada.
E adorava música.

Brigamos sim, algumas várias vezes.
Nos afastávamos até passar o banzo.

Neu me apresentou o Puchero, delícia!
E como ela cozinhava bem!
Também me ensinou a comer lentilha em cima da cadeira, no ano novo.

Foi karateca na adolescência.
Depois se acomodou e não fez caminhadas comigo e Fabinho.
Ficava esperando pra irmos curtir.
Dizia que ficava cansada só de me ouvir falar de esporte.

Nosso último encontro foi em 9 de março.
Ela estava muito feliz com a reforma da casa, me mostrou tudo.

“Aproveita pra me abraçar enquanto eu ainda estou aqui.”
Amiga, receba meu amor!
Tudo que desejo é que você esteja em paz.
Sinto saudades e muita gratidão por tudo que vivemos juntas.
Te amo!
Vida que segue.
Café da manhã.
Rotinas.
Partiu Ferrô, nadar e nadar.

Fiz o km e meio de revezamento em 56 minutos.
Nessa fase, de aumento de distância, não estou me preocupando com o tempo.
Meu corpo está se acostumando com a nova exigência que impus.

Na água os pensamentos foram as lembranças, as frases, o tudo.

Titia adorava citar Mae West:
” Quando sou boa, sou muito boa.
Mas quando sou má, sou melhor ainda.”

E Pablo Neruda:
“Confesso que vivi”, que é o nome de um livro autobiográfico.

Para reflexão, um trecho de Neruda.

“Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto, quem não muda as marcas no supermercado, não arrisca vestir uma cor nova, não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o “preto no branco” e  os “pontos nos is” a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante,
desistindo de um projecto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!”

Resisto, insisto, resisto novamente.

Seguimos.