Com meu quarto tãotão fechadinho, dormi numa caverna. Muito gostoso. Acordei 8 e meia!

Os bons dias.
Mamãe, ahhhhhh, querida!
Fer me fez gargalhar.

Faminta, liguei o rádio, tomei café da manhã, desliguei a geladeira (finalmente!) e parti pra caminhar.

15 de maio.

Estou há horas pensando em que história contar sobre o meu pai e seus líquidos e transparentes olhos azuis.Meu pai saiu de Anhembi pra Piracicaba. De Piracicaba foi pra Uberaba estudar odontologia.
Na faculdade conheceu mamãe, que foi sua caloura.
Casaram e vieram pra Anhembi, depois Botucatu.

A música do Nat King Cole, ele me contou, era o tema do amor dele por ela, Glória dos olhos verdes.

Tem uma cena que adoro.
Íamos a pé, pela Amando, de mãos dadas. Atravessávamos o Bosque e, então, estávamos no laboratório do protético seo Konish.
Um simpático japonês que era sorridente e, com sua esposa, nos recebia no laboratório, nos fundos da casa. E o cheiro, talvez de amálgama, o cheiro que acompanha minhas memórias olfativas, é o mesmo cheiro de todos os consultórios do meu pai, que frequentei desde sempre.
O Bosque, as piscinas do BTC, a banca de revistas do Seo Pires, onde íamos comprar jornais e revistas. Onde me tornei leitora de imagens e de letras.

Ao lado, o Café do Ponto, do Careca, pai da linda Renata Leccioli. E, em frente, o primeiro consultório, em cima da Alfaiataria do Minetto.
De um lado a casa Raphael, do seo Edson, pai da Cris e da Cissa, do outro a Casa Amando.

De esviego, a Casa Royal, dos irmãos Nelson, João e dona Olga, maquiada e de colares e pulseiras inesquecíveis.
Seo Nelson era marido da dona Cauca, que morava em cima do café do ponto, ao lado do Sheik.
O Sheik, bar da família do seo Pedro Cury.

O Sheik que, décadas depois, me recebeu e me proporcionou outros amigos, outras questões e decisões.

No outro quarteirão, em frente aos sobrados, onde depois teve o bar Balaio, ficava o Botucatu Hotel e o sobrado da família Peduti, amigos tattoo da minha alma, com a joalheria no térreo, ao lado do banco Francês e Italiano, onde morava o Manuel Guimarães.

No nosso quarteirão, na calçada em frente, tinha hotéis nas duas esquinas. Também a papelaria e tipografia do seo Odilon, a Pernambucanas e a fio de Ouro, da família da amiga Selma Bosco.

Na nossa calçada, a Casa Paganini, a Drogasil, o Bradesco do seo Túlio. E o nosso prédio.

O edifício Minas Gerais.
Número 565, igual ao telefone.
Nosso apartamento ficava na esquina.
O quarto dos meus pais com varandinha pra Amando. Nosso quarto, meu e dos meus irmãos, e a sala, na lateral da Velho Cardoso.
Tinha banheira.
E foi na televisão desse apartamento que vi o homem chegar a lua.

Em direção a praça e ao cinema, Paratodos, tinha o sobrado do seo Severino Macoris, em frente o sebo/correio, onde a telefonista completava nossas ligações.
Também a loja de armarinhos da dona Pedrina, a Formiguinha, dos amigos Petrechen, a sorveteria do João, a casa Jaques, o pai da Anny, a padaria Esmeralda.

A praça, linda, foi reformada e veio a concha acústica. Na calçada do cinema tinha mais um bar de coxinha inesquecível. E a loja da mãe da Eliane, de roupas.
Começando a descer em direção a Vila Maria, a casa da família do amigo Mário e do seo Luiz Fernando e dona Tila, de doce memória.

Da janela da sala e da varandinha, olhar a Velho Cardoso com meus olhos de menina, ahhhhhh, a padaria da dona Assunta Ventrella, a gráfica do seo Moacir Amaral, a casa do Dr. Nóe, do Dr. Zucari…

A Velho Cardoso era o caminho da escola, do clube, da igreja de Lourdes, da casa da Raquel, era a rua dos meus caminhos de menina.

Sempre fomos pra escola a pé, com o papai. Ele era dentista no Cardoso e foi lá que se aposentou.

E é desse paizinho que estou falando, meu pai amado que hoje completaria 87 anos.
Tive o prazer de viver sempre muito perto dele até o fim.
Foram 39 anos da minha vida em que não ficamos sem nos falar ou ver um único dia.

Quando adolescente, ele e mamãe já separados, eu escrevia cartas que mandava pro consultório dele.
Era uma forma de eu poder falar como filha, resolver probleminhas vários, já que, mesmo sendo moderno e liberal, papai fazia a linha
“- Não!
– Por que não, pai?
– Porque não e pronto!
– Paiiiiii…”
Aí eu partia pra carta e, por fim, sempre resolvia o que eu queria.
Taurino e capricorniana, que dupla de teimosos!

Protetor como pai, como amigo era daqueles cruéis, que não passava a mão na cabeça, não.
“- Resolva!”

Do seu jeito dúbio me deu valores, me cobrou posturas, me criticou mas sempre apoiou, me fez abrir os olhos pra relações já finitas e sempre me disse que não, eu não ia morrer de amor.

Tomava tabuada e capitais de Estados e países na hora do almoço.
Era um leitor compulsivo.
Me ensinou a ler jornais ainda bem pequena.
E o amor pela leitura já está na quarta geração, com minhas netas.

Também gostava de boa música.
E me deu o primeiro Rolling Stones e o primeiro Chico Buarque.

Parabéns pelo seu aniversário, meu pai amado.
Sinto saudades, sim.
E é pra sempre.
Assim como meu amor por você.

Roque Ferreira, meu grande amigo, hoje também é seu aniversário.
Sempre nas lutas, sempre lúcido, guerreiro exemplar.
Parabéns queridão!

Hermínia, a queridona, completa a mesma idade que meu pai.
Mínia, você é do meu coração.
Muito obrigada pelo carinho e amizade, beijão!

Depois de abrir a memória afetiva, não gostaria de falar do que acontece lá fora.

Mas é impossível calar.

Dois ministros da saúde em meio a essa imensa crise sanitária, uma pandemia!

200 mil infectados.
14 mil mortos.
Cadê a gestão pooooorraaaaaaa???

Estamos num país desgovernado por um PanDemônio, que vai contra todos os governos mundiais, contra a ciência e contra a vida da população.
Um insano que brinca de Deus por ser dono da caneta e por não admitir ser contrariado.

Como disse Octávio Guedes, no twitter, ” Bolsonaro não busca um ministro da saúde. Busca um cúmplice.”

O eleito está em modo enlouquecido e escolheu o caminho da destruição do nosso país e da população.
Está obcecado pelo fim do isolamento social e pelo uso da cloroquina.
Sua insegurança como governante, sua familícia fomentadora de ódio, sua síndrome persecutória, perderam os limites.

“Eu aceitei esse cargo porque achei que poderia ajudar as pessoas do Brasil.”, disse Nelson Teich em sua despedida do ministério da saúde.

Pois é.
2 a zero pra Rainha Cloroquina.

Estou pasma, preocupada e com medo.
E agora meu medo não é só do corona vírus. É também do que vem no caminho político.

Resistiremos, siiiiiiimmm!

Então.

“Quando a situação for boa, desfrute-a.
Quando a situação for ruim, transforme-a.
Quando a situação não puder ser transformada, transforme-se.”
Viktor Frankie

Seguimos.