Dormi com a barriga cheia de pizza enrolada. Daí dormi pesado, enredada no ededron e com a janela aberta.
A temperatura caiu na madrugada.
Fechei a janela e apaguei.

Acordei com um céu desmaiado, que não sabia bem que azul vestir. Frio.

Os bons dias foram especiais.
Os retornos sobre o diário aqueceram meu coração.
Muito bacana saber as histórias das famílias libanesas. Valeu poeta!
E minha querida cumadi, ahhhhhh, saudades de vocês!
Minha salgadeira preferida, e vizinha, que não quer que o diário acabe. Ahhhhhh, como saber né?

Também recebi um convite gostoso de um amigo querido. Caminharemos juntos, sim!

Dos meus filhos, boas notícias!
Lucas com mais um diploma, com méritos. Diego com novas possibilidades no trabalho.
Meus meninos são guerreiros, determinados e me dão muito orgulho. Te amos!

Mamãe está passando uns dias na casa do meu irmão André, aqui pertinho. Carinho e aconchego sempre fazem bem.

Recolhi roupas, tirei o lixo diário, preparei o café da manhã.
Chuvica.
Plantinhas, árvores e passarinhos em festa.
Tomei banho quentinho, me alimentei e me organizei pra sair.
Hoje é dia de manicure.

Pelo jornal do rádio percebi que, ontem, dei sorte em ir cedo pra Amando. Parece que houve aglomerações nas lojas.

Não entendo essa sanha de consumo, de querer fazer um carnê.
Não entendo porque vi, nessa quarentena, o quão pouco preciso pra viver.

Claro, cada um com seu cada qual.
São situações particulares.
Mas, mesmo assim, com tantas informações acessíveis a todos, será que as pessoas não percebem que a manutenção dessa abertura parcial depende do comportamento de todos?

Se houver aumento de contaminação será dado um passo atrás. E fecha tudo novamente.

Conversamos sobre a passagem do tempo, eu e Tati.
Num primeiro momento, parecia que se arrastava.
Agora a sensação é que o calendário pula. E pula rápido!
Por exemplo essa última quinzena. Voou!
Muito impressionante.

Talvez seja resultado da adaptação a quarentena que, aliás, já quase dobrou de tamanho.
Não canso de admirar os ipês floridos em Botucatu.
Lembro da rua Costa Leite ser um risco roxo visto pela janela de uma casa da mamãe, na rua Jorge Barbosa de Barros.
Já são muito poucos.

Em casa.
Famélica, acabei com a sopa de beterraba com carne.
Não satisfeita, antes que perdesse, cozinhei mandioca pra fazer vaca atolada.
O frio, a larica…
Notícias que surpreendem, pro bem e pro mal.

Em Salvador foram instaladas câmeras inteligentes que medem a temperatura dos usuários, nas duas maiores estações de metrô.

Em Campo Grande, empresas burlam a lei que proíbe o transporte entre Estados, embarcando passageiros em postos na estrada, no meio da rua e, até, não informando a cidade de destino no auto falante, na cara dura.

Tecnologia bacana.
Empresários gananciosos.

Fatos que são … irônicos?, surreais?, estranhos?, inacreditáveis?

O procurador geral que funciona como advogado geral. O ministro da justiça que , extremamente evangélico e lambe cu, funciona como advogado pessoal. A de nome nazista que diz não ir depor nessa bosta, a PF. O ministério da saúde que não tem profissional de saúde, porque a única médica é sem estrelas e sem voz.

Pessoas, que desgoverno né?
Não tem respeito, ética, limites.

Aí, um grupo de hackers vem e expõe dados pessoais, verdadeiros ou falsos, do eleito, familícia e amigos.
Fakenews na fakenews talkay?

Infelizmente, ou felizmente porque eram tempos de ditadura militar, não aprendi nada sobre o fascismo nas aulas de história do La Salle.

Na faculdade Objetivo, em São Paulo,  e na Fundação, em Bauru, alguns ótimos mestres abriram meus olhos de adolescente.

Tive um ótimo professor, que me chamou de “simplista” uma vez, e foi o melhor aluno da época de história daquela turma da Aitiara.

Foi na literatura que mais aprendi um pouco mais.
Vários autores, de várias origens.

O último foi o autor português, Miguel Souza Tavares, que muito me impressionou. Em Equador e Rio das flores pude saber sobre Salazar, Franco, Hitler, Getúlio, com a visão de um luso.
E foi estarrecedor.

Porque saber, sim, eu já sabia.

O fascismo, sua polícia política, o machismo legalizado, o racismo legalizado, a corrupção e o desmando, o servilismo a países mais ricos, o ódio a cultura.
Isso lembra alguma coisa atual?

Pois é.

O movimento já começou.
Não dá pra aceitar e suportar o retrocesso.

E a contaminação e as mortes em crescendo.

As marchas e protestos se espalhando.

” – Posso te dizer tudo?
– Pode.
– Você compreenderia?
– Compreenderia. Eu sei de muito pouco. Mas tenho a meu favor tudo o que não sei e, por ser um campo virgem, está livre de preconceitos. Tudo o que não sei é a minha parte maior e melhor, é a minha largueza. É com ela que eu compreenderia tudo. Tudo o que não sei é que é a minha verdade.”
Clarice Lispector, novembro de 1968, cronista na Revista Jóia.

Resistiremos.

Seguimos.